O Povo Quilombola Kalunga é uma comunidade de negros e negras originalmente formada por descendentes de escravos que fugiram do cativeiro e organizaram um Quilombo, há muito tempo, num dos lugares mais bonitos do Brasil, a região da Chapada dos Veadeiros, no Norte de Goiás. Incrustada no interior do País, embrenhada no cerrado, esta comunidade hoje é uma das mais importantes no que se refere à proteção da cultura do povo outrora escravizado.
O Cerrado é a savana com maior biodiversidade do planeta e sua importância está além da variedade de fauna e flora, das centenas de espécies exclusivas do bioma. Os caminhos do Cerrado dão frutos, folhas, flores, raízes, cascas, entrecascas, resinas, cera, seiva, vinho, leite. É para comer como fruta, é para colocar na comida, é para fazer doce, tempero, suco, farinha, paçoca, remédio, óleo, sabão. Do cerrado vem a vida e a força para comunidades e povos
A sabedoria e a força da mulher Kalunga são frutos do compromisso de vida que ela faz com o seu território. Ela sente o que o território oferece para a sua vida e como o seu corpo precisa agir para colher esse oferecimento. Ela coloca seu corpo em causa, em prontidão, para a sua existência e de suas filhas e filhos. A vitalidade do corpo da mulher Kalunga é sua expressão de confiança na vida, consciente de viver em um território provedor.
Nosso projeto Mulheres Kalunga – Somos, Existimos e Resistimos, é por excelência uma ferramenta para se pôr em prática o reconhecimento dos Costumes, das Tradições e das Histórias das Culturas do povo QUILOMBOLAS DA REGIÃO DO TERRITÓRIO KALUNGA de Goiás, por meio do fortalecimento e desenvolvimento de técnicas de uso sustentável da bioeconomia do cerrado pelas negras. Foram anos de esquecimento que nos impele para a valorização e resgate da História transmitida de geração a geração pela oralidade a partir da tradição africana.
No entanto, vagarosamente esta realidade vem sendo alterada, com muito esforço persistência e resistência, boa parte das comunidades oriundas de quilombos já foram identificados e titularizados em todo Brasil, o que se torna legítima a conquista do título global pela ONU (Organização das Nações Unidas) como Sítio Histórico e Patrimônio Cultural Kalunga.
Consciente da relevância deste contexto sócio histórico e cultural tanto para a nação brasileira e sua diversidade populacional, quanto para a própria comunidade remanescente de Quilombos, a realização deste projeto no território Quilombola Kalunga tem grande valor para a reafirmação da identidade étnica das Comunidades do Quilombo levando em conta as Leis 9.394/1.996, 10.639/2003 e, 11.645/2006.
Os desafios e problemas ainda coexistem ao lado dessas premiações tão visadas pela exploração (grilagem1 e invasão das terras quilombolas no Brasil). Impera assim, a urgência de reconhecimento, preservação e valorização da História dos povos originários quilombolas e seus ascendentes, embora destaquemos aqui a vanguarda do território Kalunga ter se tornado o primeiro o primeiro a ser reconhecido em estado de conservação da natureza no bioma Cerrado.
Dentre alguns desses problemas enumeramos há questões a serem resolvidas nos âmbitos educacional, cultural, trabalho e renda. Os índices de desemprego, o atraso de fontes de microcréditos ao longo dos anos, o distanciamento entre as comunidades e também do centro urbano, sobretudo a falta de oportunidades de trabalho para mulheres negras e jovens.
É importante lembrar que mesmo com inúmeras dificuldades, a comunidade teve acesso aos programas sociais de governo, tais como: inscrição no Cadastro Único, Bolsa Família, Tarifa Social de Energia Elétrica do Programa Luz para Todos, do Programa Minha Casa Minha Vida, do Bolsa Verde, e outros. No entanto, os desafios persistem nos aspectos relacionados à memória negra cuja História oficial não conta verdadeiramente as tradições africanas e sua oralidade, nem mesmo suas crenças e valores, sua cultura de fato.
Neste projeto pretende-se promover empoderamento socioeconômico e fortalecimento da cultura de mulheres Kalunga, por meio de cursos e outras atividades formativas, e organização das mulheres em grupos, da estruturação de atividades coletivas e do auxílio ao acesso às políticas públicas.
Seguindo os eixos editalícios, propomos objetivos e metas arrojadas para o fortalecimento dos processos produtivos, do manejo sustentável de produtos da sociobiodiversidade, da produção, beneficiamento e comercialização de produtos e serviços para fomentar a autonomia socioeconômica, a soberania alimentar e o fortalecimento institucional de empreendimentos solidários.
Neste diapasão, ambicionamos também resgatar e promover o significado da memória negra quilombola (termo Kilombo = refúgio de origem bantu) que traduz a resistência do povo negro, na figura do gênero feminino que busca garantir a sua sobrevivência, manter viva a sua cultura ancestral, protegendo o meio ambiente, e com bases que assegurem a transmissão de saberes de geração a geração, na sua própria experiência histórico e cultural.
O nosso desafio é não permitir que se perca os patrimônios imateriais locais, aqueles ligados à memória da cultura e ancestralidade Quilombola Kalunga. Os aspectos sociais, ambientais, culturais e econômicos serão transversais durante todo o trilhar do projeto na busca de valorização e reconhecimento do patrimônio imaterial por meio da musicalidade, dos conhecimentos tradicionais do povo Kalunga.
Apresentamos aqui um reencontro do senso de coletividade (conceito de humanidade em sua essência, humanidade para com os outros, filosofia africana Ubuntu).
Outro aspecto igualmente necessário e urgente cerne deste projeto, o conceito de bioeconomia que trata das relações entre a produção local com a biodiversidade do Cerrado como modelo econômico baseado no uso sustentável de recursos naturais como o manejo do buriti para óleos, e até na produção de vinhos e no uso medicinal, atividade realizada pelas mulheres quilombolas.
Junte-se a Nós!